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A performance comparativa de governos nacionais no contexto da economia política mundial

Muito comum é o argumento de que avanços importantes observados durante o governo Lula na área econômica (maiores taxas de crescimento econômico, p. ex.) e social (redução da desigualdade de renda, p. ex.) são devidos a um ambiente internacional favorável e não a políticas acertadas implementadas pelo governo federal. Nesse sentido, a performance do governo FHC não poderia ser considerada inferior, pois o ambiente internacional era menos favorável, marcado que foi, por exemplo, por crises financeiras internacionais originadas na Ásia e na Rússia. Aqui nos deparamos com a questão do local/nacional versus o sistêmico/internacional: quanto pode um governante nacional fazer dentro de um determinado contexto mundial? Quando abordado por questionamento semelhante, Giovanni Arrighi respondia com a frase célebre de Mao-Tse Tung: “Sob a temperatura adequada, um ovo se transforma em uma galinha, mas nenhuma temperatura é capaz de transformar uma pedra em uma galinha, porque cada um tem uma base diferente”. Destarte, causas externas (contexto mundial) são condições de mudança e causas internas (locais/governo nacional) são a origem da mudança. Em comentário publicado no site da revista Carta Capital em 12/07/10, trato dessa questão:

O argumento de que, por terem governado em conjunturas diferentes, Lula e FHC não podem ter seu desempenho comparado não procede. Embora o ambiente econômico e geopolítico mundial tenha sido mais favorável a Lula (pois a pressão para implementação de políticas neoliberais e o controle dos EUA sobre a América Latina eram menores e a economia mundial ia bem), isso é apenas condição necessária, porém não suficiente, para um bom governo. Lula aproveitou o momento; fosse um governante conservador em seu lugar, as privatizações teriam provavelmente avançado um pouco mais, a política externa não teria sido tal que contribuísse para a posição de destaque que o Brasil tem hoje, as políticas sociais que têm reduzido a desigualdade não teriam sido ampliadas como foram, as universidades federais não teriam recebido o aporte de investimento que tiveram, etc.

Portanto, embora seja claro que a performance de ambos os governos foi influenciada, para o bem ou para o mal, consideravalmente pela dinâmica do sistema mundial, não se pode explicar toda ela nesta base. Não basta existir uma demanda maior por commodities na China, é preciso que haja também fazendeiros plantando soja e a Vale explorando minério de ferro. Não basta que os EUA entrem numa guerra no Iraque e no Afeganistão, colocando por um minuto a América Latina em segundo plano, é preciso também um governo nacional que esteja disposto a abrir embaixadas na África e aumentar os laços com os BRICs.

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