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Neoliberalismo anacrônico

O artigo “A Cura do Esquerdismo“, do colunista da Folha de São Paulo Sérgio Malbergier, publicado em 30/09/2010, representa a versão mais ideológica, a-histórica, anacrônica e maniqueísta do pensamento neoliberal. Abaixo apresento minha crítica, que publiquei de forma resumida em comentário no site da Folha.

Não há fuga do capitalismo. É a grande lição deste promissor e transformador início de século.“, diz Malbergier, anacrônico e carecendo de originalidade ao reproduzir a tese do “fim da história”, enunciada pelo Professor Fukuyama, nos anos 1990.

O jornalista ainda afirma que “Depois da eclosão da maior crise econômica desde os anos 1930, ainda em andamento, a economia de mercado é hoje mais hegemônica do que há dois anos“, em um exercício de pura ideologia que ignora a quebra do consenso de Washington claramente visível no debate público veiculado pela grande mídia e nas próprias políticas adotadas após a crise. Nos EUA, por exemplo, vê-se uma crescente regulação do setor financeiro e reformas em seu sistema de saúde altamente privatizado.

E, obviamente, alguém que proclama o “fim da história” só pode fazê-lo ignorando a própria história. A crise de 1930, citada pelo autor, foi seguida de drástica mudança no tipo de capitalismo vigente no mundo ocidental (o New Deal dos EUA sendo bastante simbólico disso). E isto não foi apenas uma “reforma prudencial do sistema”, como fala o jornalista sobre as reações a crise atual, pois envolveu ampliação drástica de políticas de proteção social e intervencionismo, algo muito diferente da economia de mercado pura exaltada no artigo.

Aqui tocamos em outra falha de Malbergier, a idéia de que há um único modelo de desenvolvimento nacional capitalista e de que a discussão se dá em termos maniqueístas, onde capitalismo está de um lado e socialismo do outro. Ao dizer que “Quanto mais capitalista fica a China, mais rica ela fica. O Brasil também.“, ignora o quão diferente foram as estratégias capitalistas de desenvolvimento do Leste Asiático e da América Latina dos anos 1980 pra cá. Basta lembrar a estratégia mais gradualista adotada na China quanto à expansão da economia de mercado e a grande intervenção estatal lá presente, que faz o modelo chinês se distanciar substancialmente da economia de mercado hayekiana.

Além disso, não dá apenas pra dizer a “China cresce mais e o Brasil também”, ignorando que, historicamente, na economia capitalista mundial, mesmo quando todos crescem, uns crescem mais que outros, mantendo a desigualdade mundial de riqueza nos níveis elevados que caracterizam o capitalismo mundial há séculos (apesar da redução observada na última década por causa da ascensão intensa da China, país muito populoso).

Este artigo é, portanto, uma reprodução vulgar da teoria da modernização e da tese do fim da história. O pensamento conservador atual tem vertentes mais sofisticadas do que essa  “volta dos mortos-vivos”.

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Discussão

2 comentários sobre “Neoliberalismo anacrônico

  1. Parabéns pelo texto, pelo blog, e pela produção irretocável e brilhante. Me sinto compelido a elogiar teu trabalho eis que ele é da ordem daquelas poucas e únicas fontes de inspiração que, às vezes, encontramos na vida.

    Publicado por José Guilherme Surdi | dezembro 15, 2010, 11:00 pm

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