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2o Turno das Eleições Presidenciais de 2014: a Dor do Parto?

[Publicado pelo Outras Palavras e na Carta Capital e republicado pelo Instituto Humanitas Unisinos]

Em 1992, às vesperas da chegada das elites neoliberais ao poder no Brasil, o economista Celso Furtado publicou o livro “Brasil: a construção interrompida”. O título da obra era bastante sugestivo, pois o neoliberalismo implicava o abandono do projeto de desenvolvimento baseado na consolidação do Estado-nação brasileiro com base no mercado interno. De fato, a despeito da redução da inflação, da estabilidade econômica e das melhorias nos serviços de telecomunicação obtidas com as privatizações, as reformas neoliberais causaram – no médio prazo – um alto prejuízo social na forma de recessão e desemprego. Na primeira década do século XXI, a construção nacional-desenvolvimentista foi retomada, com a eleição de Lula. O lulismo recuperou o processo de desenvolvimento econômico nacional e criou uma noção expandida de cidadania, baseda em direitos sociais e no consumo de massa. Nestas eleições de 2014, a ameaça de uma nova construção interrompida foi muito forte. Por um lado, o resultado do segundo turno aponta para o avanço do processo de construção nacional-desenvolvimentista. Por outro, a nova composição do Congresso Nacional, com avanço das forças conservadoras, impõe sérios limites à continuidade do ciclo de desenvolvimento lulista. A vitória apertada no segundo turno e os resultados das eleições para o Congresso significam a exaustão do lulismo e evidenciam a necessidade de novas estratégias políticas e de novas políticas de desenvolvimento da parte do novo governo petista. Ou o PT faz das eleições de 2014 a “dor do parto”, a partir da qual nascerá um novo pacto social para o desenvolvimento, ou verá Dilma imobilizada diante do fortalecimento das forças conservadoras à espera de uma nova “construção interrompida”.

As jornadas de junho de 2013 foram o primeiro grande sinal da exaustão do lulismo enquanto pacto político e estratégia de desenvolvimento. As condições econômicas mundiais favoráveis foram substituídas por uma crise persistente e os ajustes efetuados nas políticas públicas foram apenas marginais e contingenciais. Em 2014, num contexto de crescentes demandas democráticas e de déficit de representatividade das instituições políticas tradicionais, Marina Silva emergiu como alternativa populista. As ambiguidades do seu projeto, bem expostas pela propaganda eleitoral petista, foram percebidas por um eleitorado mais maduro, que deixou Marina para trás no primeiro turno. O ativismo direitista da grande mídia e o “mudancismo frívolo”, por outro lado, galvanizaram Aécio Neves na corrida presidencial.

Num segundo turno protagonizado por PT e PSDB, o sentimento generalizado de necessidade de mudança, que foi o denominador comum das manifestações de 2013, foi substituído por uma polarização entre regiões, entre classes sociais e entre gerações. Aécio tinha clara vantagem nas intenções de voto das classes alta e média alta, enquanto Dilma tinha vantagem entre as classes mais baixas. Aécio ganhou nos estados mais ricos do Sul, enquanto Dilma ganhou no Norte e Nordeste. Aécio também tinha vantagem nas intenções de voto dos mais jovens (jovens demais para lembrar dos custos sociais do neoliberalismo no final dos anos 1990).

Diante da possibilidade real de vitória, a direita saiu às ruas e vociferou. Nos anos Lula, diante dos bons resultados econômicos e sociais obtidos, a direita havia ficado acuada e presa no discurso hipócrita contra a corrupção. Uma das grandes vitórias do presidencialismo de coalizão lulista, aliás, foi o isolamento e atrofiação do PFL-DEM, que de grande parceiro no governo FHC se transformou num partido nanico sob Lula. Isto não significa que a direita estivesse ausente, estava apenas na defensiva, pois o anti-petismo sempre esteve presente na grande mídia e nos círculos sociais das classes abastadas. Mas, afinal, a direita perdeu a corrida presidencial de 2014.

Num país polarizado por uma campanha eleitoral agressiva, num contexto mundial e nacional de dificuldades econômicas e com um Congresso mais conservador, é imperativo que Dilma supere o lulismo. Precisará inovar na forma de fazer política, buscando um diálogo direto com a sociedade civil e mobilizando as massas, ao invés de ficar refém de políticos oportunistas no quadro do presidencialismo de cooptação pela governabilidade. Precisará inovar no conteúdo das políticas, por exemplo, com reforma tributária progressiva e re-orientação do crédito do BNDES em favor de empresas inovadoras, para além do keynesianismo social-democrata de Lula que buscava circunventar o conflito de classes com crescimento econômico. O “muda mais”, se baseado numa lógica de mudança incremental e marginal, não será suficiente.

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